– Escreve com calma, não apresses o livro.

– Mas tenho que o terminar no fim de Abril!

– Porquê? Porque te estás a pressionar?

– Não sei…

– Depressa e bem há pouco quem! Faz lá isso com tempo.

– Está certo… Assim que o terminar envio-te uma cópia pelo correio.

– Ok!

Ela não o terminou. Não em Abril.
Por falta de vontade, porque a mente lhe desistiu. Porque o perdeu.
Quando a medo voltou a abrir o documento Word, uma mensagem automática surgiu na coluna direita.
“Bem-vindo de volta! Recomece onde ficou: 23 de abril, 2018.”
Ela fechou o portátil, saltou da cadeira e vomitou. Nenhuma nova palavra foi digitada. Ela tentou, vi-a tentar.
Dois meses passaram. Ela encarou a cadeira, abriu o portátil, ignorou a mensagem automática e escreveu.

E chorou. Mas escreveu. Revoltou-se, mas escreveu. Mas escreveu, mas escreveu!

Enviou o livro para a editora, esboçou um plano detalhado e possível, empacotou trinta meses em caixas de papelão castanho e rumou a Portugal.

E é aqui que estamos agora.

Frente a nós, a casa dele.
As persianas estão fechadas. Está tarde, frio e escuro. Da mala de mão ela saca o livro, ainda inacabado e em provas, bate a porta do carro com força e empurra o portão branco de entrada. A luz de presença do prédio dá-lhe forma no vidro da porta e permite-lhe ler o nome dele na campainha. Fica por ali a pairar, analisando a vontade que tem de empurrar o livro pela caixa de correio dele e fugir. Vejo-a baixar a cabeça, a franzir o queixo e a limpar as lágrimas. Também a ouço sussurrar:

– Terminei-o, pappy. Já está.

Lentamente vira costas e antes de puxar o portão branco, fita as persianas fechadas do quarto dele e sorri.
Sei tão bem em qual memória ela está.

___

(Dezembro, 2017. 11h20.

Cheguei de viagem e corri para tua casa. Toquei à campainha tantas vezes e do rés-do-chão gritei o teu nome. Nada, não há barulhos. Não me surpreende, sei que estás a dormir. Sempre gostaste mais das noites do que das manhãs. Voltei a gritar o teu nome, quem na rua passa de bicicleta acha-me doida.
Tu, não dás sinais de estares a pé. Eu, teimosa, não arredo pé.
Apanho pedras pequenas do chão e atiro, uma a uma, contra a tua janela. Só na décima pedrada tu corres a persiana, arredas os cortinados e vens à janela. Da cara inchada de sono vejo um sorriso rasgado:

– És tão chaga! Ainda partes a janela!

– Tu és pior que os ursos, pappy!

Ouvem-se risos pelo ar.)

____

Varreu o chão com o pé direito, virou o corpo e levantou o livro ao céu.
Obrigou-me a sair do carro e desapareceu. Contrariada, deixei-a ir.
Quando ela não sabe que fazer com aquele amor roubado e me foge, eu deixo-a ir. Deixo-a ser inconsciente, irracional e absurda. Ela ama e sofre com a mesma intensidade. Ama a vida loucamente e permite que a dor lhe rasgue o peito.
Ela desapareceu, e eu sei onde ela foi.
Foi a um lugar que está fechado, porque é já noite. A um sítio onde ela sabe que ele não está.
A ler-lhe o que ela queria que ele tivesse lido.
A imaginar-lhe a voz orgulhosa, os olhos brilhantes, o abraço desajeitado e a gargalhada de menino.
É lá que ela deve estar.
Logo logo, ela volta.

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1 Comment

  1. Ana Monteiro

    Simplesmente fantástico ❤️❤️❤️