Um puzzle montado a cru.

Sem futilidades ou bernicoques.

Julho 2011

O primeiro mestre que conheci foi em 2011. Tinha vinte e um anos e zero interesse em conhecer, perguntar ou entender coisas espirituais. Conheci-o, porque tinha visto o filme “comer, orar e amar” e o meu pai, para agradar e entreter a filha adolescente, levou-me a casa dele. Tirámos uma fotografia e vim embora.

Em Março 2020, quando rebentou a pandemia e Portugal fechou fronteiras, andava em Bali à procura do meu pai. Já falecido. O desespero e o luto fizeram-me embarcar numa aventura pela Ásia. Conheci Bali com o meu pai, em 2007 e 2011. Voltei em 2020 para, de alguma forma, encontrar conforto e apaziguar a dor.

Numa conversa com um amigo balinês, ele partilhou que não só estudava, e tinha um dom, como conhecia um mestre que me podia ajudar. Fiquei apreensiva e amedrontada, mas fui.

Não disse uma palavra que me levasse ao meu pai, também não tive coragem de fazer perguntas. Parte de mim ridicularizava essa vontade. Ele disse-me muita coisa que eu não entendi, ou quis entender. A verdade é que não estava preparada ou aberta a esse mundo, não racional. Não palpável, explicável ou falado com naturalidade no ocidente. Hoje, um bocado mais desperta, consigo perceber o que ele me tentou dizer.

Em Março de 2022, há sete meses, voltei a Bali por sete semanas. Senti a necessidade de ir, como se Bali me chamasse. Lembro-me de estar em casa, inquieta e perdida, e de sentir que tinha de ir para Bali. Comprei bilhete nesse dia. Quem me ama, apoia. Porque a vida existe individualmente antes de nos juntarmos em duplas.

Quis conhecer um mestre. Queria saber do meu pai, sem rodeios ou medos. Estava preparada. Queria saber se ele estava bem, queria saber se podia fazer qualquer coisa para o ajudar, para o ver, para o sentir perto. Certa estava que conseguiria as minhas respostas, como se a espiritualidade seguisse vontades e urgências. As respostas surgem quando não se procura desesperadamente, como quem vê um quadro de longe e percebe os pormenores que de perto não viu. Irracional, eu sei. Tento convencer os céticos, mas a cética que mora em mim é uma crente desconfiada.

Nessas sete semanas, outro sentimento me apoquentava. O de um amor antigo, que nunca me deixou seguir, sarar ou perdoar. Que me anulou, me fez sentir menos do que qualquer ser humano que respira, que queimou a minha inocência, alegria de viver e perspectiva do que é o amor/relacionamento. Fiz uma sessão de sound healing e vi, de olhos fechados deitada num tapete, tantas imagens felizes e douradas de uma fantasia doentia. Pensava eu ainda ser amor. O amor para sempre, o amor que jurei lealdade infinita e cega. Além limites e amor-próprio.

Pensei que fosse uma cicatriz d’amor, até ontem.

Mas, voltemos há sete meses e à casa portuguesa em Bali.

Conheci um mestre. Suava das mãos e evitava contacto visual. Ele ria e dizia em bahasa para estar tranquila.

Abençoou-me e sentámos lado a lado. Fazia-me perguntas sobre o passado de quem ao mundo me trouxe, perguntas que não me faziam entender o propósito ou intenção. Perguntas que nunca antes me haviam dirigido. Entre as respostas e traduções, ele viajava de olhos postos no vazio. Percebi muitas vezes que ele não estava ali, ao meu lado, mas longe. Num outro mundo desconhecido. A coexistir. Disse-me tantas coisas certas, como se me lesse sem óculos. Riu-se da minha pobre crença no mundo espiritual. E sem me querer provar nada, provou que o mundo é tão maior do que o que sei dele. Do que sabemos dele.

Não falou sobre o amor passado e não me falou do meu pai. Falou-me de outra pessoa, também falecida, que precisava da minha ajuda para encontrar paz. E eu que só queria ajudar o meu pai, sem saber se ele precisava de ajuda ou não, dei por mim a equacionar ajudar alguém que morreu antes de eu nascer. Mas que eu sei quem é, sei o que fez, sei como morreu, sei quem ele magoou e sei que o odeio desde o momento que vim ao mundo. Ele magoou alguém que eu amo tremendamente, e isso não merecia perdão ou ajuda. Em nenhuma vida. Mas ali estava eu, o Suardi, o mestre e esse alguém. Que eu não vi, mas senti. Ali estava eu, confusa e boquiaberta, com a responsabilidade imaginária de ajudar alguém que desprezei durante trinta e dois anos. A pergunta é, como raio é que o mestre podia saber disso? Ele navegou na ambiguidade das minhas tímidas respostas.

“Este é o teu karma” – disse-me ele.

Perguntei pelo meu pai, disse-me que ele não estava perto. Quem estava perto era o outro, que me segue desde que nasci e que espera uma oportunidade para encontrar paz.

Fiquei de voltar em Outubro, com um objeto que permitiria ajudar aquela alma presa. Caso o decidisse fazer. Voltei a Portugal.

Outubro 2022

Regresso a Bali, como prometido.

Na bolsa a tiracolo trago o objeto que o mestre pediu. Encontrei-o nos pertences que herdei do meu pai. Não sei como, não me perguntem como. Não sei, agora ou qualquer outro dia. Herdei do meu pai o objeto que o mestre me pediu, trouxe-o comigo sem grande esforço ou consideração. Era um objeto, específico. Que por obra do acaso ou guiada por alguém, me levou a ele.

Desta vez revejo o mestre livre de medos. A minha decisão estava tomada: ajudar. Ajudar o outro, vivo ou morto, no que conseguir. E sempre. Alguém que desprezava não seria diferente. Ou queria apenas a recompensa do bom karma? Sei que não.

Não me sinto capaz de descrever o que ontem aconteceu, em detalhe. Faltar-me-ia imaginação para inventar a experiência que vivenciei e faltam-me palavras racionais para descrever o que aconteceu.

Mas houve choro. Pedidos de ajuda. E alguém que atravessou.

Não consegui saber do meu pai como tinha expectado. Mas ele esteve presente, ele também ajudou. Disse-me o mestre.

Quando pensava que a sessão tinha terminado, pois a missão tinha sido cumprida com sucesso. Ele olha-me e os meus segredos ganham voz na sua boca. Afirma, não faz perguntas. Eu choro. Ele descobriu o que era só meu, o meu segredo. Doente, tóxico e traumático. Ele encontra-me um trauma. Que eu inocentemente achava cicatriz do amor. O que pensava ser um sinal de pureza, é paz podre. É tão profundo que me desconecta, que me deixa doente, que me provoca dores pouco amigas e que me impede de abraçar uma vida ainda mais feliz. Um trauma que desenhou uma linha na palma da mão esquerda. Um trauma.

E aqui percebi tudo. Olhei-o e sorrimos.

Tenho trabalho a fazer. Sei-o há anos. O que pensava ser luz dourada, é sombra que assombra a minha alma.

— Grita! Divide! Tiro isso de ti! Grita e medita! Procura ajuda.

Decidi meditar, porque quero ser melhor pessoa. Luto contra dois demónios que moram em mim. Um trauma e um luto. E todos os caminhos racionais são insuficientes. Se o caminho mais feliz passa por manifestar, agradecer, libertar, meditar e sorrir. Porque não acreditar num homem, que não me conhecendo de lado nenhum, me lê melhor que eu?

As respostas surgiram quando não as procurei. E nada do que me disse foi completa novidade. O puzzle é meu, sei qual o resultado final, só não o sei montar sozinha, preciso que alguém ilumine o caminho.

Eu tenho vindo a encontrar as minhas respostas, procura as tuas também. Onde? como te fizer mais feliz.

Terima Khasih❤️

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