“Entrou em casa com um ramo de flores. Chorou, implorou perdão agarrado aos meus joelhos”.

Com o mesmo ramo de flores lhe bateu. Ficou caída na cama, em silêncio, e com dezenas de pétalas a cobrir a colcha, ensopada em baba e lágrimas.

.

Está em casa, sozinha. Lambe as feridas, camufla a pele pisada, limpa os salpicos de sangue que escorrem na parede, arruma o que está no chão e disfarça a cena do crime.

O filho está a chegar da escola.

Anda de um lado para outro, com um telemóvel na mão direita e a vergonha na mão esquerda. No espelho, um vulto. Em todos os espelhos, o reflexo de uma mulher que pede socorro, sem voz, que chora sem lágrimas e que grita sem som.

.

Está à beira da estrada, sozinha. O olho esquerdo lateja e lacrimeja, involuntariamente. Acabou de ser esbofeteada, acidentalmente. Disse ele. Ela leva-o ao limite. Disse ele.

Levou-a até casa e gritou-lhe que saísse do carro. No dia seguinte, pediu desculpa. Ele não é um monstro, ele ama-a tanto que perde o controlo. Disse ele. Ela maquilhou o olho pisado e não o deixou. Não o denunciou à polícia, foi só uma bofetada. Não contou à mãe nem à amiga, foi só uma bofetada sem importância, nem foi assim com tanta força e ele prometeu não o voltar a fazer.

.

Ele levantou a voz, apertou-lhe os braços e empastou-a à parede. Chamou-a de estúpida e de cabra. Tão perto gritava que a cuspia. Ela foi embora. Ignorou-o durante dois dias. Ele apareceu-lhe à porta de casa, pediu para falar. Levou-a para casa dele e pediu desculpa. Ela disse que não o queria mais. Ele socou-a, amarrou-a a um dos postes da cave, amordaçou-a e urinou-a. Ela ali esteve, dois dias. No trabalho, estranharam-lhe ausência e a sua colega de escritório, a mesma que lhe reparou os braços pisados, enviou-lhe dezenas de mensagens. Mas quem respondia às mensagens, era o mesmo que tinha uma mulher ensopada em urina e amarrada a um poste de metal. No entanto, a colega de trabalho era esperta e enviou uma mensagem de texto ambígua e ameaçadora “se amanhã faltares ao trabalho, chamo a polícia”. E ele soltou-a.

Apareceu no trabalho, batida e humilhada. Ingressou num programa de apoio à vítima e nunca está sozinha. Nem quando está.

Ele anda por aí.

.

Ela está de quatro, a cuspir sangue no meio de uma rua pouco movimentada e iluminada. É apanhada do chão por um homem que passa de bicicleta. Ela disse que foi assaltada, mas o homem não acreditou. Deixou-a em casa, deixou-a ir. No dia seguinte, falou com o pai dela. O pai pegou na caçadeira e foi caçar o animal. Não o encontrou, não desgraçou a sua vida. A polícia nunca soube, o animal morreu de overdose dias depois.

.

Esta, esta não sobreviveu.

Esta não está para contar a sua história.

.

Em onze meses de 2019, 25 mulheres perderam a vida em Portugal, vítimas de violência doméstica. Em doze meses de 2018, 24 mulheres perderam a vida em Portugal, vítimas de violência doméstica. Em doze meses de 2017, 19 mulheres perderam a vida em Portugal, vítimas de violência doméstica.

Segundo o jornal Público “Em termos de média dos últimos dez anos, Portugal soma 30 mulheres assassinadas por ano”

.

Se tu que lês isto, és prisioneira emocional de um amor que nunca foi amor, pede ajuda. Foge, luta pela tua vida. Quem te ama não te pisa os braços, não te faz sentir menos, não te espanca, te chama de puta ou empurra, com pouca força ou a grande velocidade. Quem bem te quer não te chantageia, aterroriza, aprisiona, exige silêncio ou te silencia.

Quem gosta de ti não te bate.

Quem te adora, não te bate.

Quem te ama, não te bate.

Quem te bate o corpo ou o cérebro.

Por favor, sê maior que o medo e que o incerto.

Tens razão…eu nunca apanhei. Eu não sei o que é estar na tua pele, não sei o que é gritar de horror ou mijar as pernas enquanto fujo de um homem que diz que me ama. Eu não sei. Mas eu quero ajudar, não estás sozinha. Procura ajuda, liga para a APAV – 800 202 148.

Envia-me mensagem, faz-te ouvir.

Faz alguém saber que não estás bem… não fiques à espera da próxima vez. Não fiques à espera que ele te mate.

Não esperes. Não perdoes. Ao primeiro desrespeito, fala! Quem verdadeiramente te ama, vai ajudar-te.

E se não houver ninguém… denuncia, foge! Fá-lo por ti. Não há alma que venha a este mundo, com direito de te destruir a vida. A única vida que tens!

Não te condenes a uma vida cinzenta de sangue.

Só tu sabes o inferno, a tortura, a dor, as noites não dormidas, o corpo violado, as costelas doridas, os dedos torcidos, os cabelos puxados, os seios beliscados, o nariz desviado e a alma desfeita.

O silêncio não é opção.

Traz-te de volta.

.

Na fotografia, Dana Glick

Author

Comments are closed.