Era uma vez, num mundo não tão distante como os contos que começam com “era uma vez”, que o desejo mais comumente rogado pela humanidade se concretizou.

Os humanos, envoltos em nostalgia, perdiam-se de olhos postos no céu ou no chão, na nuca de alguém ou no animal de estimação, ou até no sofá da sala… desejavam-no em voz alta e silenciosamente. Queriam tempo. O tempo que, num mundo muito recente, não dispunham. Tempo…quem diria! Das mais valiosas riquezas que, bem como a vida, a palavra e a saúde, a moeda invejosa nunca poderia comprar.

Mas então, neste mundo do antigamente, e como há três meses é já antigamente, havia queixume da falta de tempo. De tempo para viver. Se o Homem havia já querido dinheiro, casas de revista, carros de sair ao Domingo e tecnologias de ponta, agora desejava que o relógio parasse e que não se contasse nem mais um segundo de desperdício. Homens e mulheres ansiavam uma pausa para disfrutar o que são e o que têm, com quem amam e escolhem cuidar.

Queriam tempo para ficar em casa. A comer, dormir e brincar. Como o gato preguiçoso ou o cão trapalhão. Para fazer arte, para dançar na cozinha, pintar um quadro, escrever um conto, fotografar o amor, de ver bolos levedar e de fazer crescer plantas. Queriam tempo de qualidade com quem todos os dias partilham o teto mas não o mesmo relógio. A vida responsável não permitia que, durante a semana, os talheres fossem sujos ao mesmo tempo. Sentiam-se consumidos e crentes na falta de tempo. Acreditavam, como quem desperta de um sono viciante, que desperdiçavam uma vida sem que a vivessem.
Estas vontades, repetidamente pensadas e vociferadas, foram então ouvidas.
Os habitantes do planeta Terra desejaram o tempo e de repente ficou o mundo em casa. De repente, deixou de haver falta de tempo:

– Já ouvi a porta do carro bater.

– Amanhã conto-te uma história.

– Prometes, bó?

– Prometo, neta.

A avó faz deslizar a janela entreaberta, fechando-a. A criança aproxima-se da frecha, por onde a voz idosa escapelava, e encosta a sua mão no vidro exterior. A avó repete-lhe o gesto pelo interior. A mão envelhecida cobre a da pequena, ambas sorriem. A separá-las um vidro que vibra de amor.
Assim se despedem, todos os dias que convenientemente as juntam.

A idosa ouve o portão fechar enquanto se dirige para o aido onde esteve a menina. Tranca o portão e arrasta a pequena cadeira e mesa de plástico para dentro da garagem. Viu no telemóvel que preveem setenta por cento de probabilidade de precipitação, às duas da manhã. (O que não vai acontecer). Abotoa a tenda improvisada, pega no cesto com milho solto, no saco de espigas por debulhar e recolhe-se. Quando a noite desce há um copo de pé alto, servido de vinho branco, pousado na banca da cozinha.
Pela televisão ouve-se os números atualizados que dão corpo e voz ao vírus, as promessas de cura, os avanços nas investigações, os discursos polémicos dos líderes mundiais, a vinda de uma crise económica e as previsões de um novo mundo. Com o jornal de notícias, como música de fundo, ela seca a loiça e limpa o fogão velho. Apenas atenta na televisão para ouvir a mensagem cívica e de alento com que o Rodrigo Guedes de Carvalho se despede. Algo no seu tom altivo e nos seus olhos sérios, que reluzem luz ao fundo do túnel, dão a esta idosa a coragem para quase terminar mais um dia de confinamento obrigatório.
Quase, porque antes de deitar os longos cabelos grisalhos na almofada, esta mãe e avó de espírito jovem é espectadora assídua do programa virtual “como é que o bicho mexe”. Um projeto filho de um estado de emergência, que veio reafirmar a importância da cultura, da arte e de quem dedicadamente lhes dão cara e voz:

– Que seria destas pobres almas quarentenadas em estado de emergência sem o entretenimento?

A senhora escuta e vê todos os intervenientes que entram em direto. Principalmente o rapazote que toca piano no final e que lhe traz o sono. Como os programas não são gravados, não há outro remédio que ficar acordada até de madrugada. Sem que o faça com grande esforço. Na verdade, ri… e ri muito com a comédia livre, desbocadamente valente, improvisada e lusitana que a faz esquecer das desgraças e a prepara para uma nova manhã.
Certamente desconhecida, solitária e pandémica, como todas as outras em que acorda há trinta e cinco, infinitos, dias:

– Obrigada Senhor por mais um dia com saúde, com os meus vivos e fora de perigo. Que seja assim também amanhã – Reza, de olhos postos no teto, e beija o polegar direito quando termina.

É com o chilreio dos pássaros que desperta. Porque os carros ficam agora nas garagens e não se ouve canos de escape, motores que pedem mudanças, travões desafinados ou arranques apressados. O despertador digital também perdeu o som, porque está desligado da tomada. Assim a desgraça mundial não enroupe pela madrugada e lhe ensurdece os ouvidos adormecidos.

De olhos ainda remelados compreende que dia a espera.

São seis e meia da manhã e quem sabe o último dia que a neta a visita em quarentena. E isso não traz os abraços prometidos.

A sua filha, enfermeira no departamento de pediatria, vê o seu horário mensal repartido em quinze dias de trabalho e quinze dias de descanso. O genro, motorista de camiões de transporte de mercadorias, continua a trabalhar como de costume, folgando aos fins-de-semana. Medem-lhes a febre diariamente e já sentiram o alcance da zaragatoa várias vezes. É o novo mundo de todos e deste casal, que certamente preferia ficar sempre em casa.
Ambos marcados no rosto com os elásticos das máscaras protetoras, ambos que se despem na entrada da sua casa, ambos amedrontados quando se beijam… ambos a lutarem para que a filha, mãe e sogra, estejam em segurança. Por este motivo profissional, e de quinze em quinze dias, a pequena menina de nove anos é deixada no pátio da avó materna. E é assim que à distância cuidam da solidão uma da outra.

A esta afortunada avó foi-lhe concebido o desejo do tempo. De ver e estar com a sua neta sem relógios, obrigações escolares ou distrações. De lhe ensinar o que nunca houve tempo para fazer: contar-lhe histórias fantasiosas, recriar momentos da sua própria infância e cozinhar-lhe as receitas da sua mãe. Até recuperou uma velha casinha de madeira ambulante, que revestiu com plástico da estufa, que furou e coseu com pequenos botões. Para que a menina pudesse brincar e dormitar depois do almoço:

– Queres a tua máscara de que cor? Azul com riscas brancas ou laranja com pintas beges? – Pergunta a idosa de frente para um muro.

– É igual, a que menos trabalho e tempo despender. Para o que te havia de dar… costurar máscaras!

– É o tempo que é pouco, sabes!

– Não te rales comigo! Não consigo respirar com a máscara e para além disso embacia-me os óculos. Vejo Dom Sebastião sempre que expiro.

– Diz que se lavares com sabão seco que isso deixa de acontecer… Mas devias usar sempre máscara quando sais ou te visitam.

– Mas então porque é que não vais ao talho?! –

– Porque não podemos ou devemos sair de casa, mulher!

– Mas se estás sem carne, pega numa dessas máscaras que estás a inventar e vai ao talho. De certeza que a tua filha não vai saber e é por isso que o talho não fechou. É um bem essencial!

– É Rosinda, tu não ouves o jornal? Está a minha rica filha e genro a sujeitarem-se para eu ir ao talho? Isto não é medo que ela me puxe as orelhas, isto é para segurança de todos! Tu incluída!

Enquanto encinham e regam as próprias terras, gritaram-se as vizinhas separadas por um grande muro de tijolos laranja:

– Queres que vá por ti?

– Não… Como outra coisa, à fome é que não hei-de morrer de certeza! Vá, deixa-me ir e agarra juízo!

Inquieta, a idosa desenlaça o avental, ensaboa as mãos e espreita o relógio de pulso. A menina está quase a chegar! Sacode o lençol da casinha da neta, bate a almofada, alinha os brinquedos, empilha os livros de colorir e resmunga:

“É por estas como a Rosinda que os velhos são vistos como adolescentes rebeldes teimosos, surdos e com demência seletiva. É por causa deles que nos perguntam se ficar em casa custa assim tanto. Se custa?! Custa, claro que custa! Já por norma andamos sozinhos! Tomando as dores de todos, a verdade é que quase só nos telefonam quando procuram as mezinhas antigas, para saber como se tira vinho tinto de uma toalha bordada a cores, como se faz xarope de cenoura caseiro ou a que santo rezar quando se perde a carteira. Sabendo eu que a Internet ensina mais que os velhos, há orgulho nos filhos e netos quando recorrem a uma fonte sábia e ancestral, como os pais e avós. Mas enfim…. Alguma malta nova pensa que o vírus não lhes pega, acham-se imunes. Ignorantes! Deus me perdoe…
Pelo menos não levam os nossos para a guerra. Pelo menos estamos vivos e com saúde e a cada novo dia estamos mais perto do fim desta pandemia. Não vejo a hora de beijar a minha filha, de sentir os bracinhos da minha neta a prenderem-me as coxas… Se alguma vez pensei que os abraços e os beijos fossem proibidos, porque podem matar.

Ah! E agora somos todos emigrantes! Distanciados a poucos quilómetros mas dependentes e agarrados ao ecrã do telemóvel. Para dar os parabéns e ver como se está. Para fintar a saudade, vá. Agora sabemos todos o quanto dói.
Mas o pior é para quem vai…. Com este vírus, as pessoas morrem sozinhas e não há despedidas individuais ou funerais com mais de duas pessoas. Os cemitérios estão fechados. É triste para quem morre e para quem não vê morrer.

Pergunto-me por que defuntos as carpideiras choram agora, será que tenham de chorar por toda a humanidade falecida pelo vírus?
Coitadas, agora é que se vai ver quem são as verdadeiras…
E já agora, como se entretêm as beatas confinadas?
Talvez delirem com histórias que inventam e contam aos próprios animais de estimação.
Bem… a menina está a chegar, vou preparar a tacinha de cereais com leite”.

Ouve as pedras do alcatrão velho tremelicarem na rua, coloca o tabuleiro com o pequeno-almoço sobre a mesa baixa de plástico, que arrastou para o aido, destranca o portão verde e pousa uma máscara, pintada com barcos à vela, junto à taça de cereais. No caso de ocorrer uma emergência e a avó chegar demasiado perto da sua neta.

Recolhe para a janela do seu quarto.
De cortina propositadamente fechada, espera que a sombra da pequena surja do outro lado do vidro.
Este é o seu momento favorito do dia.

A criança entra na correria. Batuca quatro-vezes na janela:

– Quem se atreve a interromper a minha quarentena?

– É a tua neta favorita!

– Também só tenho uma!

– Estás bem, mãe? Precisas de alguma coisa? – Pergunta a sua filha do meio do aido.

– Tenho tudo o que preciso. Vai em paz, volta em segurança. Vocês?

– Ainda não caiu o dele este mês… – responde a filha esfregando as pontas do polegar e indicador direito.

– Podemos pintar este hoje? – Interrompe a criança encostando à janela um livro aberto de pinturas.

– Podemos sim senhora, mas só depois de comeres.

A mãe enfermeira respira fundo, despede-se da filha com um abraço e da mãe com um aceno de olhos tristes. Não abraça a sua mãe há mês e meio, não que elas fossem de beijos e abraços a todo o instante. Porém, a proibição do toque, da proximidade, e a incerteza de quando se voltariam a sentir bem de perto, fazia pesar o coração.

Terminada de comer, a menina pousa a loiça suja dentro de uma bacia e mergulha o tabuleiro no tanque de lavar roupa, previamente emerso pela sua avó.
Não se correm riscos, afinal combatem um inimigo invisível, impiedoso e imparcial. Um descuido, um só é bastante.

Começa a competição.
Escolhem os lápis de cera, definem as regras, a menina inicia o cronómetro e ambas pintam à distância. Na rádio ouve-se o hino pandémico português, o que canta em muitas línguas a mensagem de que vai ficar tudo bem. Que reafirma que a distância significa amor e permite a vida. De tanto passar na rádio que se sabe de cor, esta avó e neta não são exceção.
A neta brincou com o tempo que restava da manhã, almoçou e deitou-se no pequeno colchão de campismo que ocupa quase toda a casinha, poisada no aido de cimento. Pela janela a avó consegue vê-la virar-se agitadamente, não tinha ainda arranjado a posição para dormir:

– Bó, disseste que me contavas uma história…

– Hoje a história é ao despertar. – Respondeu a avó pela janela do seu quarto.

– Ok.

Ouvem-se as galinhas a remexer na palha do galinheiro.

– Como é que se dorme para o lado esquerdo? Gostava de ser como o Sr. Cabeça de Batata e de desenroscar o braço esquerdo quando tento dormir. Nunca sei onde o colocar para que não fique dormente ou me doa.

A avó sorri, sofre do mesmo. Mas não lhe dá resposta, gostava que a pequena dormisse.
É importante que, mesmo na estranheza destes novos tempos, as rotinas se cumpram.

Trinta minutos passam, consegue ver a menina deitada a entreter-se com as pontas dos dedos unidas a desenhar formas geométricas ocas:

– O meu pai já não discute com os amigos, nem sozinho, sobre o futebol. – Desabafa a neta na esperança que a avó quebre o silêncio e a rotina que deve cumprir.

– Discute sobre o quê então?

– Nada. Só discutia por causa da bola. Agora não há bola, não há discussões.- Isso preocupa-te?

– Não. Mas Bó… – prepara uma pergunta séria enquanto deixa a cabeça espreitar pelo plástico que cobre a tenda – E se a vida for só isto?

A senhora aceita que não vai haver sesta, há antes dúvidas a apoquentar a cabeça da criança.

– Só isto?

– Sim. Sem os abraços dos amigos, sem ouvir o pai arreliar-se por causa do futebol… Sem viajar, sem trabalhos de casa e com tempo para brincar sozinha, com o pai, com a mãe e contigo. Acho que já nem sei o que é brincar com a Julieta e com o Mateus.

– Era isso que querias?

– Não, mas e se não houver cura para este vírus? Se a vida ficar assim para sempre? Eu tenho saudades tuas e tu estás mesmo aqui!

A avó deixa que duas lágrimas corram pelas bochechas enrugadas.

– Vamos à história do despertar?

– Yes!

O discurso da pequena soou a armadilha para não dormir:

– Nem todos os dias são perfeitos, não é?

– É.

– Então, assim como nem todos os anos são perfeitos, 2020 também não o é. Aliás, não é um ano perfeito ou pouco perfeito, é o ano zero.

Explica a avó enquanto abre a janela na totalidade para que a sua história não fique presa dentro de casa.

– Tu, eu e todas as pessoas do mundo que nasceram antes do vírus, somos do ano zero. Os que viveram na época da pandemia, os que combateram um inimigo sem corpo, som ou cheiro. É assim que vamos entrar para os livros da escola e que sairemos da boca das professoras de história.
Seremos conhecidos como aqueles que foram emocionalmente separados, desconhecendo a que catálogo pertenceríamos, se ao das fénix ou ao dos que tombaram.

Por vezes, a idosa esquece que fala com uma criança. No entanto, nunca fica sem resposta.

– Até pode ser o ano zero… mas 2020 é um ano triste também! Olha as pessoas que já morreram avó, olha tu sempre sozinha…

– Sim, de facto uma morte já são mortes a mais. Mas, quantas vezes quiseste que a escola estivesse fechada porque querias ficar em casa? Os teus desejos foram ouvidos, agora sabes que sentes saudade da escola, dos teus amigos e dos recreios. Os adultos também, queriam um recreio para sempre e agora têm-no.
Este ano é como se não existisse porque nunca antes se viveu assim. Vemos casamentos adiados, férias e bilhetes de avião transformados em vouchers, projetos em pausa e milhares de vidas suspensas. É um ano que nem deveria entrar nas contabilidades!
2020 é o ano do “um dia vai acontecer”.
Todas as vezes que desejámos algo, 2020 fez acontecer, como se fossemos os mestres dos génios da lâmpada mágica e os desejos tivessem sido concretizados quando a esfregámos. E há consequências, coisas menos boas… Mas, aqui que ninguém nos ouve, se ninguém no mundo tivesse morrido, eu acho que a Covid-19 foi o melhor que nos podia ter acontecido. Olha como nos adaptámos! Como começámos a ver o que realmente importa, olha o tão pouco que precisamos para sermos felizes! Comida, bebida, saúde e conversas. Vá… os abracinhos podiam sair do castigo!

A menina pousa a cabeça sobre os braços cruzados e suspira:

– Não te sentes sozinha, avó? Principalmente nos quinze dias que a mãe está em casa e eu não venho para cá?

– Sozinha? Não! Tenho tantas companhias….

– Quem? Ai se a mãe sabe que tens convidado as tuas amigas para o lanche!

– Não tenho convidado ninguém, tens uma avó responsável.

– Então, que companhias? Tens amigos invisíveis?

– Sabes guardar um segredo?

– Sei! – Com um balanço a menina puxa os joelhos e salta da casinha. Senta-se encostada à parede da garagem, a muitos metros de distância da avó.

– Quando tu não vens eu falo com o sol e com a lua. Conto histórias às estrelas, dou de comer às pombas e de beber às plantas. Ouço o que o vento sopra, conto as gotas da chuva, vejo as formigas a abastecer para o Inverno, percebo os pássaros e…

– O que te dizem os pássaros?!

– Contam-me o que não vejo daqui e que nem a televisão mostra, porque os pássaros são os jornalistas do mundo animal.

– Mas tipo o quê?!

– Olha, um pouco de tudo. Contam-me que os pombos matreiros, aqueles que gostam de fazer cocó em cima das pessoas, andam tristes porque os humanos não saem de casa. Que os cães andam desconfiados mas felizes, porque não percebem porque é que os donos estão sempre em casa. Contam também que os gatos de casa já não tentam fugir para a rua, porque tudo o que eles querem está em casa. E os gatos de rua, os que gostavam de estar em quarentena com donos mas não têm uma casa, que andam muito mais violentos uns com os outros.

– Porquê é que os gatos de rua se sentem assim?

– Porque é mais difícil arranjarem o que comer. Com os restaurantes fechados já não podem contar com os restos de comida no final dos almoços e jantares. Então lutam uns com os outros, mas sempre dão um jeito para sobreviver! Alguns gatos até viraram vegetarianos agora, contam-me os pássaros!

– Que mais te dizem eles? Alguma coisa sobre nós, os humanos?

– Sim. Dizem que andamos a passar mais tempo à janela e a olhar para o céu. Que passamos menos tempo ao telemóvel, que subimos aos telhados para fazer ginástica, que se cheira mais a comida caseira e que os carros deixaram de poluir o ar. E isso deixa os pássaros muito felizes, porque respiram melhor e conseguem ouvir bem o chilrear dos amigos deles.

– Eles já viram alguém a fazer a vacina que nos vai salvar?

– Isso não me disseram.

– Porque é que os pássaros não falam comigo, bó?

– Eu acho que eles só falam com as velhinhas. Quando tu tiveres a minha idade vais conseguir também. Tens é que estar atenta.

– A quê?

– Ao mundo, à Natureza e aos animais. Não importa o quanto andes ocupada, nunca te esqueças de procurar o sol e a lua.

– Ok.

– Prometes? – Pergunta a avó com o dedo mindinho levantado e suspenso na janela.

– Sim! – Grita a menina levantando-se do chão com um dos dedos mindinhos içado.

– Não! Fica aí! Promessa de mindinho aérea, como aquelas mulheres chiques que se beijam sem tocar para não borratar a maquilhagem.

A menina volta ao chão. A avó sente um aperto no estômago.

– Bó, agora há só um mau?

– No mundo?

– Sim, agora só há um mau chamado Covid ou Corona, não é? Os demónios já não existem… O corona ataca as pessoas, que não usam máscaras e não lavam as mãos, elas vão para o hospital e os heróis como a mamã conseguem salvar os que não são velhinhos ou os que não têm outras doenças.

– O vírus não leva sempre só os velhinhos para o céu, meu amor. Ainda ontem deu nas notícias uma senhora italiana de cento e dois anos que estava contaminada mas que sobreviveu. Não viste?

– A mãe não me deixa ver as notícias.

– Faz ela muito bem, uma menina de nove anos deve ter mais que fazer do que ouvir adultos a falar de assuntos que pouco sabem.

Faz-se silêncio.
A menina abraça os joelhos e, com os olhos postos no cimento, percebe que a avó não respondeu à sua pergunta.

– Não me respondeste, bó.

– Infelizmente meu amor, os demónios e os diabos ainda existem… Aproveitam-se desta situação nova e frágil. Escondem-se atrás das máscaras para que não se lhes vejam os dentes pretos e para que não se cheire o podre do seu coração. Os diabos estão em casa fechados, a fazer mal a quem está em casa com eles ou a planear a próxima maldade quando tudo ficar bem. Porque as pessoas más não mudam, nunca!

A criança olha a avó com medo, com as costas encurvadas e as mãos entrelaçadas sobre o seu pequeno regaço inquieto. Como se tivesse ouvido o que já sabia, o que tinha esperança que fosse mentira ou apenas fruto da sua pequena imaginação.
A avó responde com a raiva acumulada de todas as notícias horrendas e desumanas que diariamente lhe chegam pela televisão ou pela rádio. Sentindo-se até revoltada e palerma por ter previsto, e acreditado, que a humanidade melhorasse com esta tragédia.

Vê a menina enrolada em pouca esperança e quase se atira pela janela para a proteger, com um abraço apertado. Mas sabemos que os abraços eram perigosos, comparados a um revólver com apenas uma bala no tambor. E por isso não o fez. E por isso beijou-a com palavras, continuando:

– Hoje, mais importante do que qualquer outro dia, tem que haver bondade no nosso olhar, verdade nas nossas palavras e paciência com quem nos ama. Assim, conseguimos desmascarar as pessoas com mau coração. Porque quanto mais os diabos se escondem, mais os anjos estão em alerta.
E quando ficar tudo bem, porque vai ficar tudo bem, as máscaras voltarão a cair e tu continuarás em segurança. Sabes porquê? Porque vamos viver num mundo novo, num planeta mais verde e limpo! A avó vai levar-te à praia, ao cinema, ao parque e vai abraçar-te tanto e com tanta força, que tu vais ter de gritar para eu te largar. E a polícia vai tentar separar-nos e eu não vou deixar, porque como os espinafres do Popeye ao pequeno-almoço!

A menina ri, de queixo baixo.

– Depois vais voltar à nova escola, vais estudar e ter um namorado ou namorada. Vais para a universidade, vais trabalhar, casar se tu quiseres, ter filhos se tu quiseres e vais contar aos teus netos como foi viver no mundo zero.
No tempo onde a tua casa, e a da avó, foram abrigos seguros em tempos sofridos. Onde a esperança, a luz e o amor foram a sobrevivência da humanidade. Tu e eu, mesmo que separadas pela idade e por esta janela, seremos do tempo em que os arcos-íris desceram dos céus para as janelas de todas as casas. De quando se bateram palmas nas varandas, se cantou para as ruas, se exercitou em família e se conheceram os vizinhos.

A menina levanta o olhar à medida que a avó eleva o tom de voz.
Os olhos inocentes da menina cruzam-se com os da avó.
Observam-se em silêncio:

– Consegues sentir o meu abraço?

A menina anuiu lentamente.

– Oh meu amor… tu vais ser tão feliz! E eu sei disto, confia aqui na velha que eu não te minto! Quando terminar esta fase mais aborrecida e que nos faz apanhar cada seca! – suspira a avó a revirar os olhos – O sol vai brilhar ainda mais, a lua vai parecer maior, os abraços vão ter mais carinho e vais brincar com mais vontade. Quando o mundo zero terminar, vai continuar a não te faltar amor. Nunca te vai faltar amor, Valentina.

– E à mãe, ao pai e a ti?

– A mim também não. Como é que diz a música?

– “Andrà tutto bene!” [1]

– Vai ficar tudo bem!

As duas cantam a música da esperança, o hino da quarentena e fruto dos tempos sombrios.

Ouve-se a gravilha correr pela rua.
Há um bater de porta que se ouve no aido.
A menina encosta a mão à janela e ambas se despedem.

Talvez se revejam daqui a quinze dias, através deste mesmo vidro.
Talvez a Terra volte à normalidade, talvez as escolas abram e os hospitais voltem aos velhos horários.
Talvez já todos nos possamos abraçar.
Talvez… quem sabe?

À espera do novo mundo,

[1] Referência musical ao tema Andrà Tutto Bene da autoria de Cristóvam.

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